Crônicas e Críticas; Humor e Acidez; Idéias e Reflexões por Tiago Buckowsky Xavier

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O Leite Nosso de Cada Dia

Ao que tudo indica, começou a guerra eleiçoeira. Os anos passam, trazem mudanças. Novidades surpreendem alguns mais desatentos. Porém, longe da fluidez proporcionada pelo tempo, alguns episódios do cenário político brasileiro permanecem. Difícil acreditar nessa concretização, mas a disputa eleitoral no Brasil parece ter uma estrutura sólida, intocável – não sofre corrosões com o passar das estações. Não se desmancha nem se degrada.

Tenho uma tese muito plausível que diz respeito à possibilidade de todo político brasileiro ser portador de um clone, ou um irmão gêmeo muito submisso. Durante os anos de eleições, não são eles que aparecem nas propagandas, como candidatos. São suas cópias. Em último caso, acredito que são todos extraterrestres. Eu explico:

Desde que me entendo por gente, nunca presenciei qualquer um destes políticos praticando atos que são corriqueiros, usuais, banais a toda população, a não ser em ano eleitoral – andar de trem ou ônibus lotado, fazer visita a Tuaiá – a região mais distante de seringais do alto Xingu, tirar leite de vaca, comer dobradinha, tomar chimarrão, deixar a unha do dedo mindinho crescer para tirar cera do orifício auricular. Durante todo o mandato, estes senhores, que hoje se digladiam por nossos votos no horário nobre, fazem questão de manter a pose de seres inatingíveis. Mas ano eleitoral é tempo de abraçar pobre, tempo de beijar criancinha, tempo de salientar sua origem humilde, tempo de sensibilizar o eleitorado. Em suma, para angariar votos, é necessário mostrar-se da maneira como nunca se foi. Além de fazer criticas pessoais uns aos outros.

Aquele “Lulinha paz e amor”, que tornou-se presidente, parece não existir mais. Para colocar Dilma em seu lugar, Lula ataca os adversários na mesma proporção em que é atacado.  Ao que tudo indica, uma rinha de cães raivosos será característica no horário eleitoral gratuito, com os candidatos se mordendo ferozmente conforme lhes convier.

Fico imaginando o comportamento dos candidatos quando estão reservados à privacidade de seus lares. Ao ligarem o televisor e se depararem com suas imagens, construídas por experientes marqueteiros, irão apontar o indicador para o vídeo e debruçarão de rir da nossa cara.

O trágico nisso tudo é que, da mesma forma que o processo eleitoral no Brasil parece ter um formato sólido, os governos que se sucedem também são dotados da mesma característica. Não temos, nessa eleição, nenhuma opção de voto que apresente propostas que possam proporcionar mudanças. Não há originalidade, não há nada daquilo que há tempos já temos visto. Se oito anos antes havia certa expectativa pela eleição de Lula, nesta a esperança contrariou o velho ditado e não foi a última falecida. Finou-se sem ao menos agonizar. Bateu as botas nos deixando algumas imagens de políticos passando, por alguns minutos, pelas mesmas situações que a população enfrenta diariamente: dentro de um ônibus lotado, usando chapeuzinho de cangaceiro, fazendo carreata com mais de trinta nego na caçamba de um carro ou ordenhando uma vaca. A última imagem justifica meu voto nulo: o que eles realmente desejam é uma grande mamata, a nosso custo, nas opulentas tetas do governo.


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